De SUP do Rio à Paraty, via Ilha Grande

Esse é o relato de uma das maiores aventuras que já tive conhecimento na vida! Meu amigo Chico Rocha remou por 7 dias de SUP do Rio à Paraty, passando pelo lado de fora da Ilha Grande numa prova de resistência, preparo físico e mental. Conheça aqui essa grande história.
 
Por Francisco Rocha
 

De SUP do Rio à Paraty 

 As pessoas me perguntam se eu não tive medo. O único medo era o de desistir!
 
No dia 25 de Julho, 2017, por volta das 7;30hs da manhã, partindo da  Praia de Guaratiba, Rio de Janeiro, eu iniciava uma remada solo, de SUP do Rio à Paraty, remando por fora da Ilha Grande. No planejamento inicial eu deveria remar cerca de 42Km no primeiro dia e chegar a Ponta do Sino (final da Restinga da Marambaia, parte de fora), onde acamparia por uma noite para na manhã seguinte atravessar para a Ilha Grande. Eu pretendia concluir a remada até Paraty em 6 dias, finalizando os 170 kms.
 
SUP  

Saindo de Guaratiba

A prancha estava muito pesada porque eu levava alimentos, água, uma barraca, saco de dormir, algumas peças de roupa, eletrônicos, etc… Tudo teoricamente devidamente “protegido” da água salgada. Eu havia aguardado as condições perfeitas (vento e corrente de leste) para iniciar a remada. Logo na saída de Guaratiba percebi que a prancha não estava muito estável, o peso precisava ser melhor distribuído. Entretanto as condições do mar eram favoráveis e naquele momento seria difícil arrumar a carga no meio do mar. Resolvi que faria isso quando chegasse à Ponta do Sino. 
 

O primeiro contra-tempo

Após remar por quase 4hrs, aproximadamente 25km, a decisão de não distribuir melhor a carga se mostrou um grande erro. As ondas foram aumentando de tamanho e num descuido a prancha virou. Levei um certo tempo para conseguir colocar as mochilas de volta na prancha. A partir daí as coisas começaram a desandar.
 
Restinga da Marambaia
Parte de fora da Restinga da Marambaia
 Foi necessário remar até a areia para verificar se a água salgada havia danificado algum equipamento. Aproveitei para fazer o que eu deveria ter feito no inicio, prender a carga da forma correta. O meu receio porém era de que as ondas, que a essa altura já estouravam com força na areia, pudessem me dificultar na hora de voltar para o mar. Mas não havia nada a fazer e eu remei até a praia. Primeiro dano verificado, meu Iphone estava afogado, dentro de uma capa Life Proof que deveria protege-lo contra a água salgada e pancadas. Perdi um par de óculos e do par reserva restou apenas uma lente na armação. Todo o alimento que eu havia preparado para os dois primeiros dias estava perdido. E por fim eu havia fraturado o segundo molar inferior, mas isso eu só iria descobrir mais a frente.
 
De todos os danos, a perda do celular foi o único fato que me abalou. Era fundamental que eu conseguisse me comunicar com o pessoal de casa ou eles literalmente surtariam. Eu não poderia de forma alguma deixá-los mais preocupados do que já estavam, não seria justo. Eu precisava voltar para o mar o quanto antes e ir ao encontro de alguma embarcação que pudesse me emprestar um celular e ligar para casa. Arrumei tudo na prancha e dessa vez ficou bem melhor. Mas o que eu temia se confirmou, as ondas que estouravam bem no raso não me deixavam retornar para o mar, e isso só fez aumentar a minha frustração.
 

Na restinga da Marambaia

Arrastei a prancha de volta para a areia e resolvi verificar como estavam as condições do lado de dentro da Restinga. Subi em uma duna coberta por uma vegetação baixa e avistei a parte de dentro. A maré estava muito baixa e eram quilômetros de areia até chegar na água. Fiquei impressionado com a diferença nas condições do mar e direção do vento, entre as partes de dentro e de fora da Restinga. Eu deveria aguardar a maré subir se quisesse remar pela parte de dentro. Voltei para a minha prancha, liguei o VHF portátil que havia levado mas ninguém parecia estar ao alcance. A frustração nesse momento era grande e eu só pensava em conseguir me comunicar com o pessoal de casa. Isso era tudo o que me importava. Me deitei com a cabeça apoiada na prancha e aguardei que as condições mudassem. Eu estava no meio da Restinga, um cenário lindo e solitário, havia marcas de pneus na areia, provavelmente de algum veículo militar. Eu sabia que estava em área restrita, fatiada entre a Aeronáutica, o Exercito e a Marinha. Podia ouvir tiros de artilharia, provavelmente treinamento e também avistei dois helicópteros que sobrevoavam em formação. Cheguei a pensar que eles estavam me vendo quando passaram por mim.
 
Restinga da Marambaia
Preso na restinga
 
Duas horas se passaram, de volta as dunas observei que a maré já havia subido e que apenas um filete de areia separava a parte de dentro da Restinga das dunas. O vento estava favorável e essa era a minha única forma de voltar para o mar. O preço a pagar seria o de ter que remar quase 10km a mais. Porém àquela altura qualquer coisa seria melhor do que continuar preso do lado de fora, sem previsão das ondas diminuírem de tamanho. E sem conseguir avisar em casa que eu estava bem. Primeiro levei as mochilas até a parte mais alta das dunas, depois arrastei a prancha, em seguida escorreguei para o lado de dentro da Restinga. Amarrei tudo na prancha e sem mais tempo a perder eu estava de volta ao jogo. Feliz por ter encontrado a solução, eu remava com toda força. 
 
Restinga da Marambaia
Parte de dentro da Restinga da Marambaia
 
 Logo avistei um barco encostado na praia, era de um pescador que estava preparando uma refeição, debaixo de umas arvores. Perguntei se poderia me emprestar o telefone, e ele me disse que não tinha, mas indicou que mais a frente possivelmente encontraria outros pescadores que poderiam me ajudar. Já passavam das 15hs e a essa altura eu remava contra o tempo, pois logo começaria a escurecer. Logo a frente de fato encontrei outros pescadores da Ilha da Madeira, que me emprestaram um celular para ligar para casa. Quem foi que disse que eu lembrava de algum numero para ligar! Apenas um telefone me veio a cabeça, um fixo do escritório da minha irmã (ainda bem que era dia de semana e no horário comercial). Consegui ligar e avisar que estava tudo bem comigo. Pronto, eu era um homem revigorado. Perguntei onde ficava a Ponta do Sino e foi aí que descobri que eu estava muito, muito longe. Agradeci e voltei pro mar, tentando aproveitar as poucas horas de luz que restavam.
 

Final do primeiro dia

A essa altura o vento soprava com muito mais força, mas o sentido ainda era favorável. Cheguei até a ponta final da parte de dentro da Restinga, um lugar chamado de Pombeba, um braço de areia com uma vegetação na ponta. Eu estava cansado e faminto, mas claro não tinha mais alimento pronto e também não conseguia preparar nada porque o vento norte soprava com tremenda força.
Não consegui nem mesmo montar a barraca! Já escuro só me restou dormir na areia, por cima da barraca desmontada, mas dentro do saco de dormir… O sereno era tão forte que parecia até que estava chovendo.
 
Ainda eram 19hs e a noite seria longa. Apenas de madrugada o vento parou e a maré chegou até os meus pés o que me obrigou a arrastar tudo mais para cima. Eu sentia muito frio e aproveitei para vestir uma roupa de mergulho. Por volta de 3hrs da manha eu despertei com uma sensação de que estava sendo observado de perto e parecia mesmo uma silhueta bem próximo de mim. Calmamente alcancei a lanterna e liguei na cara do intruso. Para o meu espanto era uma capivara enorme! Naquele momento eu confesso que eu não estava certo se era um sonho ou realidade, desliguei a lanterna e voltei a dormir.
 
Restinga da Marambaia
Restinga da Marambaia – amanhecer na Pombeba
 
As 6hs já estava acordado e pude apreciar todo o espetáculo que é o amanhecer na Restinga da Marambaia. Sai remando em direção a um pequeno barco de pesca que se encontrava fundeado bem próximo de onde eu me encontrava. Fui em busca de informação e algo para comer, me sentia cansado e com muita fome. Me aproximei e fui logo me apresentando ao Seu José, que me mostrou o caminho para a Ponta do Sino e me serviu café com pão. Perguntei se ele não poderia me levar até a Ponta do Sino, eu queria recuperar parte do tempo perdido. Mas ele estrava sem diesel e não tinha como me ajudar. Ainda assim ele concordou em me levar cerca de uns 4km a frente, próximo a Praia Suja. Pode até parecer que não foi muito, mas foi de grande ajuda pois o vento estava de proa e eu estava bem cansado… Muito agradecido me despedi do Seu José e segui remando em direção ao CADIM (Centro de Avaliação  da Ilha da Marambaia).
 
Ilha Grande
Recebendo ajuda do Seu José

Ajuda da Marinha Brasileira 

A faixa arenosa da Restinga tem aproximadamente 45km no sentido leste-oeste e pertence à União. Ela foi dividida em 3 partes, uma para cada força militar. A parte que coube a Marinha fica na parte oeste da Restinga. 
Ao chegar na base da Marinha fui atrás de algo para comer pois estava faminto. Caminhei até um estabelecimento que funciona como restaurante/mini mercado e bati um pratão de comida. Enquanto comia resolvi que deveria tentar permanecer na ilha, afinal já era tarde para tentar chegar à Ilha Grande. E eu ainda não havia me recuperado do dia anterior.
 
CADIM
CADIM
 Fui orientado a me apresentar a um oficial encarregado e solicitar a permanência na ilha. Ouvi do oficial encarregado que eu não poderia ficar, que seria levado de volta à terra no próximo transporte. Argumentei bastante, disse que estava precisando de ajuda, e não ser devolvido à terra. Estava decidido que para terra eu não voltaria e, que se fosse preciso, eu jogaria a prancha de volta na água, e sairia remando até uma praia próxima em busca de ajuda. Foi quando o oficial me disse que se eu encontrasse algum morador da ilha que me recebesse, poderia ficar. Voltei ao restaurante a procura de alguém que pudesse me hospedar. Um ex oficial da Marinha, que estava passando uns dias de férias com a família soube do meu caso e me chamou para conversar. A partir daí, a minha sorte começou a mudar. 
 
A minha esquerda o ex-fuzileiro e agora Policia Federal Carlos Eduardo
 
Seu nome de guerra era Albuquerque, e hoje atuava na Polícia Federal. Ele me escutou atentamente e se ofereceu para levar meu caso ao conhecimento do Capitão de Fragata Alan Vieira, imediato  do CADIM.  Graças ao Albuquerque, o Capitão me recebeu em sua sala e eu repeti tudo o que havia falado antes. Ele então determinou que eu deveria receber comida e abrigo pelo tempo necessário para me me recuperar e voltar para o mar. Me pediu o chip do meu celular e instalou em um aparelho que ele tinha de reserva. Testou o celular e ao me entregar disse para proteger bem da água do mar, e que em caso de emergência deveria ligar diretamente para ele, pois onde eu estivesse os Fuzileiros Navais iriam ao meu socorro. O Capitão Alan não poderia ter representado melhor os valores e o lema dos Fuzileiros Navais, ADSUMUS!
 
Restinga da Marambaia
Com o imediato do CADIM, Capitão de Fragata Alan Vieira
 
Na manhã seguinte, depois de uma noite de descanso, auxiliado pelo Sargento Aquino, eu preparei a minha prancha e voltei para o mar dando continuidade a minha remada. Deixei a base com o espirito fortalecido e com excelentes lembranças. Jamais esquecerei o apoio que recebi da Marinha Brasileira!
 

Chegando na Ilha Grande

Remei até a Ponta do Sino, local que eu deveria ter chegado há dois dias atrás e segui em direção a Ilha Grande. Mas eu não estava com pressa, a previsão do tempo se mantinha inalterada e o meu acidente na Restinga me permitiu conhecer a parte de dentro da mesma e a base do CADIM. Minha jornada havia se tornado ainda mais rica!
 
Ilha Grande de SUP
Ao amanhecer deixando o CADIM rumo à Ilha Grande
 
Da Ponta do Sino continuei remando em direção à Ilha Grande, até o Farol dos Castelhanos. A preocupação naquele momento era com o intenso trânsito de navios que cruzavam o canal em direção a Mangaratiba, Porto de Sepetiba e terminal da Petrobras em Angra dos Reis.  Era preciso muita atenção para não ficar no caminho desses gigantes que assustam pelo tamanho e pelo efeito que causam na água conforme se deslocam. O navio não consegue perceber uma pequena embarcação na sua rota, imagine então uma prancha! Pode até parecer fácil a tarefa de evitar se aproximar demais dos navios mas acredite, não é. Eles se deslocam a uma velocidade maior do que a da prancha e são tão largos que pode ser difícil escapar da proa deles.
 
Ilha Grande
Travessia da ponta do Sino para o Farol do Castelhano – parte de fora da Ilha Grande
 
Desafio vencido, os navios haviam ficado para trás e eu já me aproximava do Farol do Castelhanos, no extremo  leste da Ilha Grande. Para quem não sabe é um dos faróis mais antigos da costa brasileira, datado de 1900. Foi uma satisfação muito grande chegar à Ilha Grande! Embora eu ainda tivesse um bom desafio à minha frente, ter remado toda a Restinga e ter conseguido atravessar para a Ilha Grande já era um grande feito pessoal. Passei pelo farol em direção às praias de Lopes Mendes e Dois Rios.  Já com a praia de Lopes Mendes a estibordo segui para Dois Rios, a minha praia favorita!
 
Dois Rios Ilha Grande
Em Dois Rios, Ilha Grande

Dois Rios, Ilha Grande

O dia estava lindo, com água muito clara, ondulação de meio metro e ventos com não mais do que 7  nós. Foram 32km em  5hrs de remada até chegar à Dois Rios. A alegria de pisar mais uma vez nessa praia tão especial era enorme. Dois Rios é rica em histórias que antecedem a instalação do Presídio Candido Mendes, implodido em 1993. Recomendo a leitura do livro Memórias de um Médico na Ilha Grande, de 1969. Escrito por Herminio Ouropretano Sardinha. O Dr. Sardinha serviu inicialmente como médico da Colônia Penal e mais a frente como diretor. No livro ele aborda os fatos que levaram o navegador português Martin Afonso de Souza até a Ilha Grande.  Relata curiosidades sobre a escolha da Praia de Dois Rios que fora arrematada em 1902 por 30 contos de réis pela União, para a construção da Colonia Penal. Com a construção do presídio o governo pretendia limpar as ruas do Rio de Janeiro dos criminosos e de toda a sorte de mal elementos.  São histórias incríveis e curiosidades  sobre a Ilha, o presídio e a Praia de Dois Rios. 
 
Dois Rios, Ilha Grande
 
 Eu havia me programado para dormir na casa do Ronaldo, um amigo de Angra. Ele tem uma pequena casa na antiga vila construída para servir de moradia para os oficiais que serviam no presídio e suas famílias. Hoje toda essa área está sob a administração da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Tenho uma profunda tristeza ao observar o grau de degradação e abandono desse patrimônio. A própria decisão que levou a implosão do presídio me parece muito equivocada. Ao invés de implodir toda uma história junto com os prédios, deveriam ter transformado as instalações em uma área de visitação. Poderiam talvez cobrar uma taxa para isso… A vila deveria ter sido mantida de forma impecável e estar pronta para receber turistas do mundo todo. O turismo equilibrado e consciente é o caminho para a prosperidade e conservação da região. Já o abandono é o que leva a destruição. Se o Estado está falido, que se faça uma PPP. O que não pode é continuar desse jeito! Acorda Angra dos Reis, acorda Governo do RJ!

Revendo amigos

Com a perda do meu celular eu não sabia se o Ronaldo estaria me aguardando e nem mesmo se estaria na ilha. Consegui me informar sobre a localização da casa dele e para a minha sorte ele estava lá. Fui muito bem recebido pelo amigo que embora estivesse com visitas em casa, insistiu para que eu ficasse com eles.  
 
Ilha Grande
Deixando Dois Rios, Rumo ao Aventureiro
 
 
 Em seguida fui fazer uma visita rápida ao Seu Julio, famoso em toda região por ser conhecido como o último condenado a cumprir pena no extinto presídio Cândido Mendes. Na ultima vez que eu havia estado com ele ainda restavam dois anos para o término da condicional. Seu Julio acumulou um total de 60 anos de pena e chegou a cumprir parte na antiga penitenciária do Lazareto, na Praia do Abrão.
 
Dois Rios Ilha Grande
Com Ronaldo e Seu Julio em Dois Rios
 
Praticamente cego de um olho e com seus quase 90 anos,  ele se lembrou de mim e de quando o coloquei para remar uma prancha de SUP. Na ocasião estávamos gravando uma matéria especial  para o programa Zona de Impacto do canal Sport TV. Lembro-me de ter ficado impressionado com o equilíbrio dele ao remar a  prancha. Fiquei ali conversando com o seu Julio e depois retornei para a casa do Ronaldo. Tomei um banho, me alimentei e antes das 19:00hs eu já estava dormindo, pois o corpo pedia.
 
Ilha Grande artesanato
Seu Julio e seu artesanato
 
Na manhã seguinte acordei cedo, tomei café com o Ronaldo, em seguida ele e um outro amigo me ajudaram a carregar a prancha com as mochilas até a praia. Hora de partir e seguir viagem até a próxima parada, Praia do Aventureiro. Seria uma remada relativamente curta de aprox 18km. A condição do mar permanecia a mesma, a não ser pelas ondas que estavam um pouco maiores. 
 
Dois Rios Ilha Grande
Deixando Dois Rios rumo à praia do Aventureiro – com Ronaldo e seu amigo

Pelo lado de fora da Ilha Grande

Cheguei à belíssima praia da Parnaioca e por pouco não fiquei por lá. Mas prevendo que as ondas estariam maiores no dia seguinte, fiz como o planejado e continuei remando até o Aventureiro. Remava sem pressa, contemplando toda a exuberância daquela porção da Ilha Grande. Passei pelas Praias do Leste, Sul e Demo.  
 
Praia da Parnaioca Ilha Grande
Praia da Parnaioca
 
Praia da Parnaioca Ilha Grabde
Praia da Parnaioca
 
Quando cheguei no Aventureiro bati aquele prato de arroz, feijão e peixe frito e me instalei no Camping do Luiz. Em seguida montei a barraca pela primeira vez desde que sai do Rio.  
 
Aventureiro-SUP-do-Rio-a-Paraty
 
A cada praia que chegava eu conhecia pessoas boas, pessoas gentis. Algumas dessas pessoas me olhavam meio incrédulas por acreditarem ser improvável que alguém pudesse ir tão longe em cima de uma prancha. Outras se prontificavam a me auxiliar de alguma forma. Mesmo no mar, algumas embarcações mudavam o seu curso e vinham na minha direção para saber se eu estava precisando de alguma coisa, se estava tudo bem. No Camping não foi diferente, conheci algumas pessoas bem interessantes e a resenha era sempre boa. Como de costume me recolhi cedo.
 
De Sup do Rio à Ilha Grande
Camping do Luiz , Aventureiro
 
De Sup do Rio à Ilha Grande
Deixando o Aventureiro rumo à Provetá – Costão dos Dragos
 
Na manhã seguinte estava de pé verificando as condições do mar, antes de começar a desmontar o acampamento. Conforme o previsto a ondulação agora passava de dois metros. A condição de vento e corrente permanecia a mesma, mas eu sabia que a remada pelo costão dos Dragos traria um desafio a mais. As fortes ondas lavavam o costão e voltavam para o mar deixando a remada de SUP muito instável. Se  tivesse comigo uma prancha de surf teria aproveitado a parte da manhã para surfar as boas ondas que se formavam na Praia do Aventureiro. Ansioso para voltar para o mar levei as mochilas até o canto direito da praia, próximo ao cais e em seguida a prancha.
 
De Sup do Rio à Ilha Grande
Dia de ondulação, com mais de 2 metros – Costão dos Dragos
 
Aguardei o momento certo entre uma série e outra de ondas para entrar na água. Passei pela arrebentação e pela laje próxima ao cais. Após alguns minutos remando entendi que a forma mais eficiente de remar naquelas condições seria de joelhos. Naquele trecho eu deveria evitar a todo custo que a prancha virasse. Ajoelhei-me meio que sentado sobre uma das mochilas e remei com força pelo mar turbulento. Não me lembro de ter cruzado com nenhuma embarcação até chegar a ponta dos Meros.
 
De Sup do Rio à Ilha Grande
Chegando na Praia dos Meros
 
Ao virar a ponta dos Meros o mar voltou a ser de Almirante e quem estava por ali pouco sabia das condições lá de fora. A caminho do Proveta resolvi dar uma chegada na Praia dos Meros. Lá haviam dois veleiros, um vindo de Salvador e o outro, um Beneteau de um casal de SP. Eles me aguardavam na praia como se quisessem perguntar algo. Ao chegar eles me ajudaram a puxar a prancha para a areia, e me perguntaram de onde eu estava vindo e para onde eu estava indo. De Sup do Rio à Paraty! 
 
De Sup do Rio à Ilha Grande
Praia dos Meros
 
Eles me contaram que aquela era a terceira vez que me avistavam. Que viram quando eu atravessei da Marambaia para a Iha Grande, que me viram chegando em Dois Rios e que agora estavam me vendo de novo. Conversamos bastante e fui obrigado a recusar um churrasco a bordo do Beneteau, pois eu ainda tinha que chegar na Praia do Provetá. Despedi-me e segui remando por cerca de mais uma hora até chegar ao meu destino e assim cumprir mais uma perna da remada.

Provetá, Ilha Grande 

Cheguei ao Provetá por volta das 13hs e agora precisava descobrir onde ficava a casa do meu amigo Luiz Gordo e o nome do caseiro que iria me entregar as chaves. Lembrem, eu tinha esses dados todos anotados na agenda do meu falecido celular. Mas o Provetá não é tão grande assim e logo eu já estava dentro da casa, com todo meu equipamento. A casa ficava no alto, bem acima do cais, com uma vista linda para a praia. Fui ao mercado local em busca de alimentos, sentia muita falta de comer frutas.  
 
De Sup do Rio à Ilha Grande
Vista da casa do Luiz Gordo no Provetá
 
Voltei pra casa, preparei uma refeição, em seguida voltei para a vila, queria conhecer o Seu João, aquele do pinguim Dindim. Veja esse vídeo aqui. 
Encontrei o Seu João em casa, ele me convidou para entrar e conversamos por cerca de uma hora sobre essa amizade improvável e extraordinária que ele construiu com o Dindim. Havia um boato de que o pinguim havia retornado a praia mas ele me disse que não era verdade. De fato um pinguim ferido apareceu na praia mas não era o Dindim. Seu João cuidou dele e pouco tempo depois ele se foi.  De acordo com o Seu João o Dindim já fez 7 viagens da Patagônia à Ilha Grande. Quando está na Ilha ele gosta de dormir no quintal, com as galinhas. Costuma acordar e caminhar até a praia para se alimentar e beber água, depois retorna pra casa. Em uma dessas idas à praia ele foi atacado por um cachorro e quase veio a falecer. Seu João não perdoa a agressão e guarda muito ressentimento por esse cachorro.
De sup do Rio à Paraty Ilha Grande pinguim Dindim
No Provetá com o Seu João do Dindim
O dindim tem muito ciúmes do amigo e em uma de suas visitas à ilha, ao chegar se deparou com um outro pinguim que o Seu João havia resgatado para tratar. Dindim não gostou nada e foi logo despachando o semelhante de volta pro mar. Por fim, o nome Dindim, se deve a um pequeno menino, vizinho do Seu João, que não conseguia falar pinguim, pronunciava Dindim. Seu João então decidiu que seria mais fácil começar a chamar o pinguim de Dindim do que ensinar o garotinho a pronunciar corretamente. Foi graças ao menininho que o pinguim ganhou um nome. Foi um papo muito agradável e descontraído, deu pra perceber  o grande amor que o Seu João guarda pelo Dindim.  Ele não perde a esperança de rever o amigo ainda esse ano.
 
Ilha Grande de SUP
Deixando a Ilha Grande rumo à Ilha de Sandri

Etapas finais

Me restava agora apenas duas etapas para concluir a travessia. Na manhã seguinte remaria por 28km até a Ilha do Sandri e no dia seguinte mais 31km até a cidade histórica de Paraty. 
 
Chegando na Ilha de Sandri
 
Como de costume fui cedo para a cama e mal havia clareado eu já estava de pé me preparando para partir. Saí cedo, sem vento algum, apenas com uma leve ondulação de leste. Nesse trecho eu remaria em direção ao continente, uma remada inicialmente estimada em 6h mas durou 7h. Eu me sentia debilitado, provavelmente desidratado, somado ao fato de que eu já estava há 6 dias no mar, remando debaixo de sol forte, em uma média de 6h.
 
Fátima e Paulinho na Ilha de Sandri
Os últimos 10 km dessa remada foi bem difícil, a remada não rendia. Acenei para um veleiro que passava por perto e perguntei se havia alguma bebida com açúcar, eles me ofereceram H2O. Eu me senti melhor, o suficiente para remar até o Sandri com mais disposição. Estava feliz em poder rever a Fátima e o Paulinho, seu neto/filho. Avistei os dois na praia, puxando um barco para cima. Ao me ver ela foi logo falando “está vindo de onde seu doido, não me diga que é de Angra!”.  Ao responder que estava vindo um pouco mais de longe ela concluiu “tu é doido mesmo rapaz!”. Esse diálogo foi antes mesmo de pisar na areia. Pedi abrigo para aquela noite e sem muita conversa fui ajudar a puxar a lancha.
 
Ilha de Sandri
Com Paulinho na Ilha de Sandri

Ilha do Sandri, Paraty

Como é linda a Ilha do Sandri, uma água tão cristalina, areia clara, as pedras no fundo da costeira possuem um formato bem diferente, são arredondadas e limpas, como se tivessem sido colocadas lá pelo homem. Na década de 70, na praia Sul da Ilha, o mafioso italiano Tommaso Buscetta começou a construir um cassino mascarado de hotel. Pouco antes da inauguração Tommaso foi preso e extraditado. O esqueleto da edificação continua de pé, ferindo  a paisagem, o meio ambiente e o bom senso.
 
Ilha de Sandri
 
A noite não demorou a cair, a Fatima preparou um jantar, conversamos por um tempo e em seguida me recolhi, precisava estar bem para remar a ultima perna da travessia. Seriam 31Km até a Praia do Pontal em Paraty e por mais disposto que eu estivesse, após 6 dias o remo parecia pesar mais. Dormi muito bem, embalado pela conversa do mar com a areia. Mal o dia amanheceu eu já estava de pé, tomando café com a Fátima.
 
 Francisco Rocha Ilha de Sanri
 
Ao me despedir, além de muito agradecido, estava bem pensativo. A Fátima vive em um pedaço de terra abençoado porém leva uma vida muito simples, de muito trabalho e dificuldades. Seu companheiro de longa data, o Velho Moacir faleceu há cerca de 4 anos. Ela passou a cuidar da propriedade praticamente sozinha, no máximo com a ajuda do neto Paulinho. Recentemente ela adoeceu e me disse que chegou a pensar que não fosse sobreviver. Ainda se recuperando ela me recebeu, dividiu o alimento e me acomodou em sua casa como se eu estivesse pagando para isso.  

Recordações e agradecimentos

Agora eu remava firme, sabia que em poucas horas chegaria a Paraty. Eu queria aproveitar aqueles últimos kms, últimas horas de remada para pensar em tudo o que eu havia experimentado naquela semana. O desafio enfrentado na Restinga da Marambaia e a determinação que leva a superação. A incrível passagem pelo CADIM, a travessia para a Ilha Grande e a chegada em Dois Rios. A noite no Camping do Aventureiro e a remada pelo costão dos Dragos. A despedida da Ilha Grande deixando o Proveta rumo ao Sandri.
Por onde eu passei encontrei pessoas genuinamente generosas, dispostas a ajudar sem nada pedir. Como se servir ao próximo fosse uma necessidade. Que bom perceber que, assim como as paisagens a alma dessas pessoas também permanecem intactas e irretocáveis.
As pessoas que eu reencontrei, as que conheci, o receio de ser atropelado por um navio e as conversas com o meu falecido pai. A reafirmação do meu amor pela vida e pelas pessoas. A gratidão por ser parte desse sistema tão complexo, improvável e divino. Não estava atrás de recordes, fosse de tempo ou distância. Eu remo por mim, é uma busca, uma oportunidade de me conhecer mais, de me aprimorar mais.  
Um desafio físico mas acima de tudo mental. De tudo o que eu experimentei, a certeza de que por onde eu andei eu nunca estive só é o que mais me fascina. 
Obrigado Marcelo Lopes pelo apoio logístico, obrigado Naim e Tinininho, Nanda e Fabio pelos equipamentos, obrigado Morrango pela prancha, Finho e Rodrigo Obino pela previsão atualizada das condições do mar. Obrigado Flavia Ribeiro por todo apoio e tempo, obrigado Biel por me buscar em Paraty e por fim obrigado minha adorada Victoria por ter cuidado dos negócios enquanto eu remava por ai.

Missão cumprida: de SUP do Rio à Paraty

Agora faltava bem pouco e eu já avistava a minha filha Victoria com o namorado na praia do Pontal. Dei uma última olhada para trás e aumentei a pressão no remo. Naquele momento eu já queria pisar em terra firme, concluir a minha jornada e voltar para casa.
Na manhã que se seguiu a minha chegada, já no meu quarto com 5Kgs a menos, ao acordar bateu uma angústia que eu não conseguia entender. Pela janela olhei para o mar e resolvi jogar a prancha na água e remar um pouco. Era isso que eu estava precisando, remar no meu quintal, onde eu me preparei para essa viagem e onde todos os dias pela manhã eu me encontro.
 

 

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